domingo, fevereiro 04, 2007

Do crime e do castigo

De novo khalil Gibran e sua sabedoria.
"Então, um dos juízes da cidade acercou-se dele e disse: fala-nos do crime e do castigo.
Em vós, muito é ainda do homem, e muito não é ainda do homem. Mas apenas de um pigmeu informe que vagueia sonâmbulo nas brumas, à procura do seu próprio despertar.
É do homem em vós que quero agora falar. Porque é ele, e não vosso Eu-Divino ou o pigmeu que vagueia nas brumas, quem conhece o crime e o castigo do crime.
Freqüentemente tenho vos ouvido falar daquele que comete uma ação má como se não fosse dos vossos, mas um estranho entre vós e um intruso em vosso mundo.
Mas eu vos digo: Da mesma maneira que o santo e o justo não podem elevar-se acima do que há de mais elevado em vós, assim o perverso e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais baixo em vós.
E da mesma forma que nenhuma folha amarelece senão com o silencioso assentimento da árvore inteira, assim o malfeitor não pode praticar seus delitos sem a secreta concordância de todos vós.
Como uma procissão, vós avançais, juntos, para vosso Eu-Divino. Vós sois o caminho e os que caminham. E quando um dentre vós tropeça, ele cai pelos que caminham atrás dele, alertando-os contra a pedra traiçoeira. Sim, e ele cai pelos que caminham adiante dele, que, embora tenham o pé mais ligeiro e mais seguro, não removeram a pedra traiçoeira.
E ouvi também isso, embora a palavra pese rudemente sobre vossos corações:
O assassinado é censurável por seu próprio assassínio. E o roubado não está isento de culpa por ter sido roubado. E o justo não é inocente das ações do iníquo.
Sim, o agressor é muitas vezes a vítima do agredido.
E mais comumente ainda o condenado carrega o fardo para o inocente e o irreprochável.
Vós não podeis separar o justo do injusto e o bom do malvado, porque ambos caminham juntos diante da face do Sol, exatamente como os fios branco e negro são tecidos juntos, e quando o fio negro se rompe o tecelão verifica todo o tecido e examina também o tear.
Se um dentre vós põe em julgamento a esposa infiel, que pese também na balança o coração de seu marido e lhe meça a alma com cuidado.
E aquele que deseja fustigar o ofensor que examine a alma do ofendido.
E se um dentre vós, pretende punir em nome da retidão e derrubar a árvore do mal, que observe as raízes da árvore e, na verdade, verás raízes do bem e do mal, do frutífero e do estéril, entrelaçadas no coração silencioso da Terra.
E vós, juízes que desejais ser justos, que julgamento pronunciareis contra aquele que embora honesto na carne é ladrão no espírito ?
E como punireis aquele que assassina o corpo mas é ele próprio assassinado no espírito ?
E como processareis aquele que impostor e opressor nas suas ações é também molestado e ultrajado ?
E como punireis aqueles cujos remorsos já são maiores que seus delitos ?
Não é o remorso uma justiça aplicada por essa mesma lei que desejais servir ? E contudo não podeis impor o remorso ao coração do inocente nem retirá-lo do coração do culpado.
Espontaneamente ele gritará na noite para que os homens despertem e reconsiderem. E vós, que desejais compreender a justiça, como a compreendereis sem examinar todas as ações na plenitude da Luz ?
Somente então, sabereis que o ereto e o caído são o mesmo homem, vagueando no crepúsculo, entre a noite de seu eu pigmeu e o dia de seu Eu-Divino.
E que a pedra angular do templo não supera a pedra mais baixa de suas fundações."
A gente tem q prestar atenção nesse texto e refletir sobre ele pq traz um sentido muito profundo. Falamos muito sobre "o julgar". E, embora todos julguemos constatemente todos e tudo ao nosso redor, condenamos o julgamento e almejamos ser mais justos. Recentemente Saddam Russein foi julgado, condenado e assasinado com o consetimento da justiça e da sociedade. Diariamente ouço frases do tipo: "é ladrão, bandido mereçe morrer."
Há poucos dias, próximo de minha casa, vi várias pessoas linxando dois garotos que roubaram uma bolsa e vez ou outra aparece na tv notícias de pessoas que revoltadas fazem justiça com suas próprias mãos.
Não estou aqui para julgar ninguém. Respeito a dor do próximo e compreendo que no calor da tristeza, da dor e da revolta queiramos fazer justiça contra o agressor.
Mas nós não temos apenas um coração, temos tbm neurônios; é preciso refletir e entender o real sentido do que seja justiça.
O Aurélio nos diz que justiça é a virtude de dar a cada um aquilo que é seu.
Allan kardec afirma que a justiça consiste no respeito aos direitos de cada um e ao ser questionado sobre pq um considera justo o que para outros é injusto, responde: é que em geral se misturam paixões ao julgamento, alterando esse sentimento, como acontece com a maioria dos outros sentimentos naturais e fazendo ver as coisas sob um falso ponto de vista.
Entendo "dar a acada um aquilo que é seu" como o respeito aos direitos de cada um. E todos temos direito de errar, arrepender-se, tentar de novo e acertar. Todos nós em graus diferentes erramos tbm. Qdo caímos e nos machucamos sentimos dor; mas qdo fazemos mal, por uma palavra mal dita, àqueles que amamos a dor do remorso é muito maior. Porque o remorso nós sentimos na alma.
Qdo o Aurélio nos diz que a justiça é dar a acada um aquilo que é seu, não é o mesmo que dizer dar a cada um conforme suas obras?
Aí algumas pessoas podem dizer então: se ele matou, merece morrer. E eu digo, com certeza ele vai morrer e vai sofrer muito, antes, durante e depois da morte. Pq então precipitar as coisas?
Seria muito lógico aplicar-se a lei de talião - do olho por olho, dente por dente - lá no tempo de Moisés. Mas a era de Moisés já passou e é imperativo evoluir. Jesus e muitos outros vieram depois e nos disseram para amar e perdoar. Então pq insistir na lei de talião?
É claro que ainda somos muito pequenos para conseguir amar alguém que nos tenha feito mal, mas se nos lembrar-nos que o ladrão é tbm filho, pai, irmão, amigo, gente como a gente e não um monstro que precisa ser expluso da sociedade, talvez aí, consigamos pensar e agir com muito mais justiça.
Adriana Calcanhoto gravou recentemente uma música que fala que todos temos pais e mães, eu, você e até Fernandinho Beiramar, todos já fomos crianças, eu, você e até Saddam Russein, todos já tivemos um sonho, eu, você e até o Hitler. É bom pensar nisso antes de voltar a julgar alguém. Lembrar que nem sempre a vítima é tão vítima assim. E que por pior que possa parecer, o pior dos bandidos sempre tem um resquício de amor em seu coração que pode transformá-lo em alguém melhor que eu e você. Por que tirar dele então a chance de se arrepender e mudar?
Nunca sabemos o que há por detrás das coisas e qtos segredos escondem um coração.
Só pra finalizar: "Após a crucificação, depois do seu último suspiro, antes de subir ao Pai, Ele desceu às profundezas do inferno e lá viu seu irmão, aquele que o traiu com um beijo e num gesto de amor não só o perdoou, como continuou visitando-o até que estivesse pronto pra estar ao seu lado de novo."

Um comentário:

Anônimo disse...

hehehe, o texto do blog espírita, que acabei de publicar é sobre justiça, reencarnação e lei de causa e efeito. Isso que eu chamo de transmimento de pensação Prisoca.